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SHAPEANDO SONHOS, O SHAPER CARIOCA HENRY LELOT CONTA SUA TRAJETÓRIA E RESPONDE SUAS DÚVIDAS

Autoria: LP17 Comunicação
Fotografia: Arquivo e Ivan Storti / Seletiva Petrobras

Pergunte aqui ao Shaper Lelot o que voce sempre quis saber sobre prancha e shapes, ele vai responder . E aqui vai a primeira pergunta respondida:

Shape On Line, 27 de setembro de 2005

Fala Lelot!!

Como cliente seu, comprovei o fato da prancha de Epoxy ser mais resistente e mais leve que a convencional de poliuretano. Agora, como é possível uma prancha desse material não fazer morsa?? Como se explica esse fato??

Outra pergunta. Lá fora já tem shaper confeccionando pranchas de fibra de carbono. O que você acha dessa tecnologia? Como pioneiro empreendedor, vislumbra a idéia de trazê-la para o Brasil, assim como o Epoxy?

Um grande abraço,
Alexandre

Caro Alexandre,

A resina epoxy é a mais nobre entre as resinas, e entre as vantagens, possui também maior flexibilidade, isto é, com o peso e a pressão do surfista sobre a prancha, ela flexiona, mas sempre volta para a posição com rapidez em função de sua alta memória molecular.

Nas pranchas de epoxy, prefiro utilizar uma camada mais grossa de fibra de vidro, garantindo maior resistencia e memória, causando a sensação de estilingar levemente a cada mudança de direção, o que pode vir a ser uma grande vantagem no surf moderno.

A fibra de carbono também é um material de vanguarda, que otimiza a performance e resistencia da prancha. Mas é necessário bastante pesquisa por parte dos shapers para melhor utilização das vantagens dessa nova tecnologia, cujo maior empecilho é o alto custo.

Mas atualmente me chamam a atenção os blocos de poliestireno extrudado, desenvolvidos pela Dow (industria química) sob o nome STYROFOAM: não entra água, mesmo com a prancha tecada; é compatível tanto com a resina epoxy, quanto poliester.

Abraços Lelot

SHAPEANDO SONHOS

Com uma carreira marcada pelo pioneirismo, mas também muita polêmica, O shaper carioca Henry Lelot segue formando novos shapers e novos talentos para o surfe.

Conheça o shaper que estará assinando o novo Canal do ClickSurf : Shape on Line. Você pode fazer perguntas, tirar dúvidas e o que você quiser sobre o mundo das pranchas através do endereço de MSN hlelot@hotmail.com

Há quantos anos você surfa, onde e quando você começou a shapear?
Aprendí surfando no Arpoador, Diabo e Copacabana desde 74. Em 85, com 21 anos, me joguei para a Califórnia com o objetivo de aprender a shapear. Tive a oportunidade de trabalhar na Natural Progression Sufboards, de Malibu, que fazia mais de 500 pranchas mensais.

Quantas pranchas você já fez e para quem já shapeou?
Já fiz mais de 6000 pranchas, todas sob medida, sem back-shaper. Já shapeei para caras como Barton Linch, Matt Hoy, Todd Miller, Jake Spooner, Mick Campbel, Danny Wills, Shaw Sutton, Mark Ochiluppo, Kelly Slater, Joel Parkinson, Andy e Bruce Irons. Entre os brasileiros, Caulí Rodrigues, Fedoca, Jojó de Olivença, Tinguinha, Ricardo Toledo, Joca Junior, Peterson Rosa, Neco Padaratz, Leo Neves, Wilson Nora, Tanio Barreto, Fabio Silva, Tita Tavares e Claudemir Lima, entre outros. Atualmente estou iniciando um trabalho com o Renato Galvão (pranchas de epoxy) e com o Burle para o Tow in em ondas brasileiras e coordeno um projeto voltado para a revelação de novos talentos como Patrick Tamberg, 19, de Fernando de Noronha, Rafael Maike, 19, do Pier da Barra-RJ, os irmãos Guilherme (14) e Isabela Lima (11) e Luana Coutinho, 16, de Ubatuba.


Lelot laminando

Andy Irons com uma prancha Lelot

Occy no WCT do Rio em 1997

Patrick Tamberg em recente capa da revista Hardcore

Bar temático

Tenda usada nos treianmentos

Lelot e Flávio, da Keahana, desenvolvendo a nova tecnologia epoxy.

Patrick Tamberg, do time Lelot, foto IVAN STORTI (SELETIVA PETROBRAS)

O que é a ORGANIZAÇÃO SURFE DO BRASIL e com que objetivo você a idealizou?
É uma ONG que tem como objetivos popularizar o esporte e capacitar as pessoas para realizarem o sonho de viver do surfe. Seja confeccionando pranchas, ou se tornando um surfista profissional... Através da O´SURFE, nos últimos 2 anos já capacitamos mais de 200 jovens oriundos de comunidades carentes, em atividades que vão desde a iniciação no esporte até cursos profissionalizantes de confecção de pranchas de surfe.

Desenvolvemos ainda, um projeto especial, trazendo para trabalhar com o surfe dois especialistas de renome internacional no esporte voltado para o alto rendimento: o Prof. João Alberto Barreto (Psicologia Esportiva) e o Dr. André Castanheda (Medicina esportiva) são profissionais com teorias respeitadas mundialmente e métodos personalizados de avaliação e treinamento físico e psicológico especialmente para atletas que buscam o alto rendimento nas competições esportivas. Contando com esse staff técnico os atletas poderão desenvolver ao máximo o seu potencial. Atletas de todo o Brasil, optando por treinar no Rio de janeiro, podem ainda contar com uma infra-estrutura especialmente voltada para o surfe: nossa sede fica a duas quadras da praia da Macumba, e possui alojamento com rack p/ pranchas, armário individual, ducha quente, ventiladores, geladeira, banheiros, internet rápida e bar temático com sucos, sanduiches e refeições naturais, além de net, exibição de DVDs de surf inéditos e uma oficina-escola onde são realizados os cursos profissionalizantes de shape e laminação, que rolam mensalmente.

Quer dizer que além de shaper, você é também instrutor de surfe e treinador de atletas?
Realmente fiz o curso da CBS/ISA com o objetivo de me tornar mais completo como shaper e de me capacitar para a coordenação dos projetos citados. Trata-se de uma técnica Australiana que permite ao aluno ficar em pé na prancha, já na primeira aula. Hoje, posso dizer que tenho uma visão muito mais afinada sobre qual modelo e dimensão de prancha um iniciante necessita, de acordo com sua faixa etária, o seu tipo físico e a sua coordenação motora.

Você foi o primeiro a utilizar a informática na confecção de pranchas de surfe com o seu método de precisão nas medidas, o Computer Design System. Fale um pouco sobre como ele pode auxiliar ao shaper...
O CDS é uma planilha que fornece um cardápio de medidas para ser utilizado pelo shaper no planejamento de cada prancha, tudo de maneira personalizada e proporcional, através da TPV (teoria dos pontos variáveis). O CDS inclui regulagens que variam de acordo com o posicionamento do surfista, sua distribuição de peso e pressão sobre a prancha, onde até o tamanho do pé é importante, especialmente no caso das meninas, por exemplo, que costumam ter o pé menor. O CDS pode ser regulado com o design padrão de cada shaper, ou mesmo a partir de uma prancha base (uma prancha do Kelly Slater, por exemplo) e inclui regulagem para ondas maiores também.

Você foi o primeiro a ensinar a arte do shape, tendo formado em seu pioneiro curso de shape, nomes que já se destacam no mercado, como Hennek, Passos, Bessa, Hrday, Davenia Ferraz, Simon, Pereira (Maceió), Gabriel Veras (Fortaleza) e muitos outros. Há quem diga que você cria cobras ... :-)
Deus não dá asa a cobras... :-) Mas acho que isso faz parte também; quem quer se tornar shaper mesmo, acaba se tornando. Então, é melhor que eles entrem fazendo um trabalho bem feito, e isso é possível através do CDS, mesmo para quem está começando. Nesses últimos 13 anos, passei o método CDS para mais de 500 novos shapers do Brasil, América do sul, Europa e Japão. É uma satisfação ajudar as pessoas a realizarem seus sonhos, especialmente o sonho de viver do surfe, viver de pranchas, puro idealismo. As pessoas tem que trabalhar com o que gostam. Alguns shapers reclamam, mas eu acho que a gente não deve se preocupar com os outros. Me dou bem com essa galera toda que aprendeu comigo e, sinceramente desejo o sucesso para todos. Sempre haverá espaço para bons profissionais.

Na matéria " Novas possibilidades" , no último guia de pranchas da revista Fluir, você coloca que utilizando o método Computer Design System e o sistema DSD/Surf cad combinados, o shaper pode aferir ainda maior precisão nos shapes e personalização nos designs. A matéria causou certa polêmica entre os shapers, o que mais você poderia falar a respeito?
A máquina oferece precisão no que ela faz, mas ela não faz tudo. Se o shaper quiser mesmo maior precisão, precisa controlar o finish com medidas, pois se trata do ajuste fino da prancha. As medidas escolhidas pelo shaper através do CDS, são jogadas no DSD e após a usinagem pela máquina, o shape é conferido com base nas medidas fornecidas pelo CDS; importante lembrar que a máquina não desbasta a longarina, então como garantir a precisão necessária em toda a extensão da longarina e nas bordas após o pré-shape? O CDS permite uma precisão extra...

Enfim, o método CDS é extremamente útil ao shaper no planejamento das medidas, funciona totalmente em harmonia com o sistema DSD/Surfcad e inclui medidas também para o finish, garantindo maior precisão e personalização dos designs. Afinal de que adianta tanta precisão com a máquina, e depois fazer o finish no olho? O que posso garantir é que 1/16 ou até 1/32 de polegada, pode fazer muita diferença no funcionamento da prancha. Com o CDS é possível minimizar essa margem de erro...

Quando rolou a falta de blocos, há cerca de 3 anos, você aproveitou o momento e largou o poliuretano, para fazer somente pranchas de epoxy. Não foi uma decisão precipitada? Você não acha que perdeu mercado com isso?
Verdade que em um primeiro momento eu perdi mercado mesmo. Também achei que seria mais fácil...mas não me arrependo: o epoxy é uma tecnologia realmente superior, e acho que saí na frente me especializando no material. Atualmente, a Keahana está com uma resina muito boa, transparente, não amarela mais, aditivos importados que aceleram a secagem e tornam a lixação mais fácil. As quilhas novas de encaixe também são muito interessantes, inclusive compatíveis com a FCS. Para se ter uma idéia do nível em que estamos, a Keahana é a única empresa do segmento que exporta seu produto; e sabe para quem? Xanadú e Matt Biolos... eles acabaram de dividir um container cheio, mês passado...não é brinquedo, não...

Você é o novo shaper das pranchas OP no Brasil. Quais são os planos da marca?
As marcas de prancha gringas já estão no mercado nacional, sendo produzidas aqui mesmo, com matéria-prima nacional, mas comercializadas nas lojas ao preço de uma prancha importada. A OP quebrou as regras, ao credenciar um shaper brasileiro para oficializar a produção de suas pranchas no Brasil; e também por apostar no epoxy. Penso que toda a iniciativa inovadora é importante para a evolução do mercado e a OP está de parabéns.

Em sua opinião, quais as tendências no mundo das pranchas para os próximos anos?
Bem, o epoxy já é uma realidade no mercado mundial. As principais lojas de surfe do mundo oferecem pranchas de epoxy da Surftech - Tuflite, com mais de 160 modelos de vários shapers mundiais, por preços superiores ao de uma Al Merrick em poliuretano. Na Austrália, Europa e em todo o mundo essa nova tecnologia vem ganhando mercado progressivamente. Então penso que valeu a aposta... Acredito que ter me especializado antes dos outros fabricantes, garante uma boa vantagem no desenvolvimento do produto, que vai estar cada vez mais presente no mercado, por proporcionar uma prancha superior à convencional em todos os quesitos.

Alguns shapers acham que as pranchas de epoxy são leves demais, quebram fácil e quando quebram, entra muita água e são difíceis de consertar. Você concorda?
Como é novidade ainda, a tendência é o shaper tentar fazer como se fosse uma prancha convencional. Ele coloca 2 panos de 4oz no deck + 1 no fundo...a prancha vai ficar leve em excesso, prejudicando a performance, vai ficar fraca, quebrando a toa, e vai entrar água mesmo. Não funciona... O shaper colhe esse feed-back e então desiste. Mas se ele não vai a fundo, não se especializa, também não pode falar muito... Aproveitando a leveza do bloco de isopor, aplicamos uma camada mais grossa de fibra, tornando a prancha ainda assim mais leve, mais resistente e durável. O isopor flutua 30% mais e, combinado com uma camada de fibra mais espessa e a nobre resina epoxy, proporciona uma memória de flexibilidade bastante superior, estilingando a prancha a cada troca de borda. Por isso mesmo o surfista necessita de um período maior de adaptação ao timing da prancha. Se tiver paciência para colocar a prancha no pé, é difícil voltar ao poliuretano. O isopor realmente absorve mais água; então o segredo é não ficar caindo com a prancha tecada. Mesmo assim, a água sai e a prancha volta a ficar leve. Sobre os consertos, é praticamente a mesma coisa, basta usar resina epoxy e não deixar a área do conserto fraca, senão quebra de novo. Realmente existem vários macetes, mas eu mesmo continuo aprendendo a cada dia..